Marxismo sem estudo, revolução sem organização: a armadilha digital

Guillermo Uc


As contradições do capitalismo intensificam-se constantemente e, como consequência, mergulham um grande número de jovens na pobreza e na incerteza quanto ao futuro. Inevitavelmente, essas condições levam a juventude proletária a aproximar-se das ideias do marxismo-leninismo e a procurar formação dentro dessa corrente. Contudo, o capital está ciente disso e utiliza uma das suas ferramentas de dominação ideológica, as redes sociais, não apenas para lucrar com essa ideologia, mas também para introduzir distorções burguesas nos ideais do socialismo.

Um excelente exemplo disso é o número sem precedentes de influenciadores que, sob o disfarce de “marxistas” ou “comunistas”, criam conteúdos para as redes sociais, produzindo vídeos curtos e visualmente impactantes, onde a forma prevalece sobre o conteúdo. Esses vídeos são direcionados especificamente a um público jovem, pouco acostumado ao estudo rigoroso e, portanto, suscetível a consumir esse tipo de conteúdos. No entanto, é preciso perguntar: quem financia a produção desses materiais? Quais são os seus interesses? O conteúdo teórico é supervisionado por alguma organização marxista-leninista? Ou reflete simplesmente as interpretações individuais do intelectual que aparece diante das câmaras?

Uma breve análise desses vídeos, infográficos e publicações em geral fornece uma resposta clara: longe de oferecerem uma teoria sólida, contêm sérios desvios teóricos, típicos do oportunismo. Entre eles, destacam-se a promoção do chamado “socialismo de mercado”, a caracterização da China como um país “socialista”, o uso de categorias como “império”, “globalização” e “neoliberalismo”, o apoio político ao movimento do chamado “socialismo do século XXI”, uma mistura de chauvinismo e parafernália socialista e uma vulgarização de elementos filosóficos marxistas. Além disso, para se apresentarem como pensadores “inovadores” que desenvolvem o marxismo, inventam uma série de conceitos e categorias “totalmente novos”, mas estes são vazios de conteúdo. Há tudo, menos marxismo-leninismo sério.

É importante reconhecer o potencial das redes sociais quando usadas adequadamente, especialmente por organizações comprometidas com a luta pelo socialismo e pelo comunismo, como na divulgação de campanhas específicas e no combate a posições oportunistas. No entanto, um erro grave — que pode ser encontrado até mesmo entre alguns camaradas — é pensar que as redes sociais são o espaço onde devemos dedicar o nosso trabalho político ou considerá-las um substituto para a formação ideológica diária e coletiva.

Nas  suas Instruções para o estudo, Hermann Duncker explica a importância do estudo em círculos, em sessões dedicadas ao estudo coletivo, sempre com base num plano. Atualmente, tanto o nosso Partido como a nossa Juventude Comunista possuem planos e programas de estudo, seminários, escolas de quadros, etc., que são necessários para a formação dos seus membros. Aqui, é importante enfatizar não apenas o estudo coletivo, mas também a existência de um plano, elaborado por órgannismos do Partido, para garantir que o que é estudado seja proveitoso para a aprendizagem.
É que
Quando um jovem que se aproxima das ideias comunistas não tem nada além do que o influenciador de turno lhe diz, baseado em sabe-se lá o quê, sob a égide de sabe-se lá quem. Que certeza pode haver de que o que ele absorveu não é uma distorção do comunismo? Com ​​quem ele pode confrontar essas ideias quando elas são lançadas através de uma tela por um intelectual sem disposição para o debate?

Há quem tente encontrar o lado “positivo” desses materiais de entretenimento, apelando para a suposta utilidade ou boa vontade dos seus criadores, insinuando que eles servem como uma “primeira abordagem ao marxismo” para os jovens e, dessa forma, somos nós que os integramos nas nossas fileiras.

Duas coisas devem ser ditas sobre esse argumento. Primeiro, embora o fenómeno dos influenciadores “comunistas” seja recente demais para tirar conclusões definitivas, a experiência acumulada até ao momento sugere que jovens influenciados por “marxistas” online às vezes acabam a tentar introduzir essas conceções equivocadas na organização, procurado reduzir o trabalho, especialmente da Juventude Comunista, ao âmbito das redes sociais e rejeitando as formas organizacionais leninistas. Isso não é surpreendente, visto que um tema comum nessas personalidades online é a negação do Partido Comunista e da sua disciplina — uma situação perigosa, pois implica objetivamente a possibilidade de criação de grupos e correntes de opinião.

Além disso, esse argumento implica que a Juventude Comunista deve esperar passivamente que esses influenciadores nos entreguem de bandeja periodicamente um fornecimento de novos recrutamentos, tentando subtilmente esconder a nossa própria incapacidade de realizar o trabalho político na vida real.

Embora as redes sociais possam ser uma ferramenta de difusão de ideias, elas nunca serão uma medida concreta da influência do Partido Comunista. Não podemos presumir que conteúdo viral se traduzirá automaticamente em organização, porque a construção de uma força política real depende do trabalho diário das massas, da organização nos locais de trabalho e nas escolas e da formação coletiva dos militantes.

Em vez de nos concentrarmos nas redes sociais, pensando que a mera agitação online basta para nos aproximarmos das massas, ou seja, querendo tornar-nos “influenciadores”, o que precisamos fazer é agitação nas fábricas, nas escolas, nos bairros, criar círculos de estudo com jovens trabalhadores, organizar os nossos camaradas nos locais de trabalho, etc., isto é, realizar o verdadeiro trabalho de um jovem militante comunista.

Não sabemos se o fenómeno dos influenciadores “comunistas” é uma moda passageira ou se, com o aumento das tensões interimperialistas, a burguesia dependerá cada vez mais deles para confundir a juventude proletária. O que é certo é que nos devemos proteger, e aos nossos camaradas, ideologicamente deles e de tornar as sessões de estudo mais frequentes, discutir coletivamente os clássicos do marxismo-leninismo e empreender tarefas de organização entre as jovens massas proletárias para que possamos ser o primeiro ponto de contato da juventude com as ideias comunistas, e não personalidades da internet cuja agenda, a julgar pelas suas análises e posicionamentos, é determinada por interesses oportunistas.

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