Pelo Partido Comunista da Turquia (TKP)

Representando o seu Partido, Anıl Çınar, membro do Conselho do Partido do TKP, participou no 3.º Encontro Internacional de Publicações Teóricas de Partidos e Movimentos de Esquerda, organizado este ano pelo Partido Comunista de Cuba e dedicado ao centenário de Fidel Castro, o grande líder da Revolução Cubana. Abaixo encontra-se o texto integral do discurso proferido por Anıl Çınar durante o painel intitulado “Geopolítica e Relações Internacionais”.

A geopolítica e a geoestratégia são conceitos dos quais nós, marxistas, nunca gostámos particularmente. Isto deve-se ao facto de, na construção de uma estratégia revolucionária, o papel desempenhado pela dinâmica de classes ser simultaneamente excecional e universal. A geopolítica, por outro lado — como o próprio nome sugere —, apoia-se no alcance geográfico dos Estados e de outros atores de poder. Neste quadro, as classes só podem emergir como um determinante secundário.

No entanto, os desenvolvimentos que empurram as classes dominantes para a crise e dão origem a dinâmicas revolucionárias — se estivermos a falar do sistema mundial imperialista — possuem inevitavelmente uma dimensão geopolítica. De facto, questões como onde e como podem surgir transformações revolucionárias, ao longo de que linhas de fratura se poderão desenrolar e como se pode defender uma revolução, só podem ser respondidas através de uma perspetiva que seja simultaneamente detalhada e moldada pelo fator tempo. Tudo isto, num certo sentido, é geoestratégia.

É impossível não notar esta dimensão geoestratégica nas teses de Lenine escritas em março e abril de 1917 — particularmente nos seus alertas sobre as condições e a longevidade dos avanços revolucionários. E como poderíamos esquecer a forma como as revoluções e as lutas de libertação nacional dos séculos XIX e XX redesenharam o mapa da Europa e do mundo? Se recordarmos como cada um destes avanços enfrentou forças contrarrevolucionárias e exércitos invasores, temos de admitir que houve bastante “geopolítica” em jogo.

Lembrem-se do mapa do Médio Oriente que George W. Bush fez circular antes da invasão do Iraque — ou daquele que Netanyahu exibe agora perante uma sala quase vazia nas Nações Unidas. Quer queiramos quer não, é evidente que, a partir de agora, teremos de viver e respirar mapas.

Os nossos inimigos não conhecem fronteiras. Em todos os sentidos da palavra, não conhecem limites. Olhem apenas para o que fizeram ao mundo. Desde a dissolução da União Soviética e a desintegração da Jugoslávia até aos dias de hoje, revelou-se uma tendência impressionante: o imperialismo deitou para o lixo todo o mapa do século XX — um mapa moldado por revoluções e libertações nacionais.

Em ambas as Guerras Mundiais, e em cada momento posterior, as potências imperialistas procuraram momentos em que pudessem dividir o mundo à sua vontade, livres de resistência. Hoje, e na verdade já há bastante tempo, transformaram a ausência de uma grande potência socialista numa vantagem para si próprias.

A ideia de que as fronteiras dos países podem ser alteradas não está apenas a ser expressa abertamente — está a ser provada na prática. A linguagem da diplomacia é, mais do que nunca, a da guerra. A crença de que tudo pode acontecer a qualquer momento, de que os poderosos podem fazer o que bem entendem sem restrições, transformou a dinâmica do mundo imperialista numa lei da selva mais do que nunca.

E sim, tudo isto obriga-nos, a nós também, a viver e a respirar ao ritmo dos desenvolvimentos internacionais.

Mas é precisamente por estas razões que devemos colocar a perspetiva de classe no primeiríssimo centro. Na verdade, este próprio mundo está a criar uma atmosfera na qual a questão de classe cresce silenciosamente e se prepara para se vingar.

Reparem — sempre que separámos a luta da Palestina da luta dos pobres contra os ricos, dos oprimidos contra o imperialista, contra o ocupante — foi aí que começámos a perder a nossa maior arma. Não era o maior medo do sionismo a perda da opinião pública mundial? O que testemunhámos nos últimos meses mostra a que recursos pode recorrer uma potência ocupante que perde a legitimidade mesmo perante a opinião pública dos EUA — e entre os próprios setores da sociedade em que outrora confiava. Ficou claro que a força mais crucial com que o povo palestiniano pode contar é a nossa capacidade coletiva de conquistar a opinião pública nos nossos próprios países.

Tudo isto — tanto pela sua presença como pela sua ausência — é a vingança da questão de classe.

Hoje, a atmosfera de guerra e de emergência permanente que envolveu a Europa — e, cada vez mais, o mundo inteiro — não pode ser explicada unicamente pelos desenvolvimentos internacionais e pela sua própria lógica. Podemos realmente separar a decisão da Volkswagen, ou de qualquer outra grande corporação, de produzir equipamento de guerra do esforço para habituar milhões de pessoas a viver em abrigos, ou do crescimento da xenofobia, do racismo e da extrema-direita? Podemos verdadeiramente pensar nas preparações extraordinárias em curso em países que mal parecem “elos mais fracos”, para usar o nosso próprio jargão, como algo alheio ao medo de um possível surto revolucionário?

Pensar em todos estes desenvolvimentos — planeados ou espontâneos, mas profundamente baseados nas classes — como algo separado da atualidade da revolução seria um erro grave. Sim, um avanço revolucionário concreto tem estado ausente há bastante tempo. Neste sentido, poder-se-ia até argumentar que a classe dominante não tem razões para temer uma ameaça revolucionária iminente. Mas não é precisamente esse o problema? A verdadeira razão pela qual este cenário surgiu é que a classe trabalhadora e as grandes massas foram alienadas — psicológica, ideológica e politicamente — da própria ideia de revolução. Segue-se, portanto, que o ponto mais fraco neste cenário sombrio surgirá quando uma classe dominante, há muito habituada à indolência, for subitamente confrontada com uma ofensiva revolucionária.

O pré-requisito para isso, contudo, é ver o mundo através de uma lente de classe e de uma perspetiva revolucionária — especialmente num período em que a revolução parece tão distante.

O que mais pode explicar a determinação do povo cubano, que continua a manter-se firme sob um bloqueio que vergaria qualquer outra nação numa semana? Nenhum outro país foi tão espremido por pressões geopolíticas e internacionais como Cuba. E, no entanto, no cerne da resistência de Cuba reside a sua insistência na revolução socialista — mesmo após recuos temporários na construção do socialismo. Devemos compreender bem de que tipo de moral revolucionária brota esta perseverança e como ela infundiu força aos revolucionários de todo o mundo.

Indubitavelmente, o sistema imperialista encontra-se num período de transição — marcado pela ilegalidade de uma hierarquia imperialista liderada pelos Estados Unidos. A própria ilegalidade tornou-se uma demonstração de poder. Da perspetiva em que nos encontramos, esta demonstração de poder ameaça arrastar a Turquia um século inteiro para trás. O governo na Turquia está agora preso nas garras de uma crise na qual se sobrepõem várias dimensões. Isto torna o nosso país mais vulnerável do que nunca às intervenções dos EUA e do Reino Unido. Nestas condições, a Turquia tem assumido cada vez mais o papel de facilitadora do trabalho das potências imperialistas ocidentais. O seu espaço de autonomia cada vez mais reduzido estreitou as suas opções, enquanto as suas declarações tímidas de “temos outras alternativas” apenas mascaram o que são, no final de contas, gestos de colaboração.

E devemos ser claros: sem um desenvolvimento revolucionário, a Turquia não sairá da NATO. Tudo isto impõe aos comunistas que lutam dentro de um país membro da NATO o dever histórico de atribuir particular importância à luta contra o imperialismo dos EUA e contra a NATO.

Esta prioridade significa também que nem todos os países podem ser colocados no mesmo plano. Como Partido Comunista da Turquia, acompanhamos de perto os desenvolvimentos geopolíticos e internacionais. No entanto, a luta contra o imperialismo só pode ser travada através de uma estratégia na qual a nossa posição de classe se sobreponha a tudo o resto. Esta é a única condição para tirar partido das circunstâncias internacionais. Ao definirmos os nossos amigos e inimigos, devemos, em última análise, agir em conformidade.

As últimas décadas ofereceram a prova mais clara disso. O maior obstáculo à ilegalidade e à arrogância imperialistas é a legitimidade da própria resistência — e essa legitimidade encontra o seu verdadeiro significado quando se transforma numa luta que faz com que os imperialistas se sintam inseguros mesmo nas suas próprias casas.

Sim, o inimigo tem os seus aparelhos mediáticos, exércitos, bancos e agências de informação. No entanto, chegará o dia em que será evidente que nada disso os poderá salvar.

Com uma condição: se não esquecermos o nosso dever e se fizermos bem o nosso trabalho de casa.

Muito obrigado.

Discurso do TKP no Encontro Internacional de Publicações Teóricas de Esquerda em Cuba