Em Moscovo, foi lançada a chamada nova rede socialista internacional Sovintern, sob a liderança dos próprios “patriotas de esquerda” da capital russa. A iniciativa é apresentada com discursos grandiosos sobre socialismo, anti-imperialismo, luta anticolonial e solidariedade internacional. Mas por trás dos símbolos vermelhos, emerge outra realidade: não o internacionalismo proletário, mas a política burguesa dos campos de influência.

A Internacional Soviética foi criada pelo partido Rússia Justa1, um partido que não representa nenhum movimento operário revolucionário independente, mas faz parte do cenário político do aparelho estatal burguês russo. O facto de um partido assim tentar construir uma “internacional socialista” já diz muito. Não se trata de unir a classe trabalhadora na luta contra o capitalismo, mas de dar uma linguagem política de esquerda a uma linha geopolítica.
São particularmente reveladoras as ligações com a Plataforma Anti-Imperialista Mundial (PAIM). Este grupo tem vindo a seguir, há algum tempo, uma linha de pensamento que divide os Estados capitalistas do mundo em campos “bons” e “maus”. Os EUA e a NATO são corretamente identificados como potências imperialistas, mas, ao mesmo tempo, outras potências capitalistas – sobretudo a Rússia e a China – e as suas próprias burguesias são retratadas de forma positiva. Assim, a análise marxista-leninista do imperialismo como um sistema mundial é substituída por um mapa geopolítico simplificado, no qual a classe trabalhadora é chamada a escolher um lado entre diferentes potências burguesas.
Isto não é anti-imperialismo. É oportunismo. Uma linha comunista jamais se poderá basear na subordinação da classe trabalhadora aos interesses de um ou de outro Estado capitalista. O imperialismo não se resume à política externa dos EUA. O imperialismo é o capitalismo na sua fase monopolista, um mundo de exportações de capital, lutas por mercados, a procura de matérias-primas, armamento militar e concorrência entre Estados capitalistas. Combater o imperialismo estadunidense embelezando outras potências burguesas, portanto, não é marxismo, mas uma capitulação à política de campos, ou esferas de influência.
O simbolismo que envolve as figuras mais destacadas da Sovintern torna a questão ainda mais clara. Sergey Mironov, figura central no projeto Rússia Justa e o projeto Sovintern, já posou orgulhosamente com uma marreta que recebeu como presente dos círculos do Grupo Wagner . Não se trata de um símbolo neutro . O Grupo Wagner passou a ser associado à brutalidade, à atividade mercenária e ao militarismo reacionário. Quando um político que alega falar de socialismo exibe um símbolo como esse com um sorriso, diz mais do que cem declarações políticas.
Aqui nos deparamos com o método da reação de cor vermelha: falam de anti-imperialismo, mas celebram valores militaristas e simbólicos; falam de socialismo, mas não se baseiam na independência da classe trabalhadora; falam de solidariedade internacional, mas vinculam-na aos interesses da política externa de um Estado capitalista. O resultado é um “anti-imperialismo” que não liberta a classe trabalhadora, mas a conduz à dependência das classes burguesas estrangeiras.
É necessário, portanto, distinguir entre o verdadeiro anti-imperialismo e o falso anti-imperialismo. O verdadeiro anti-imperialismo dirige-se contra todo o sistema imperialista, contra todas as classes burguesas, contra todas as alianças imperialistas e contra qualquer tentativa de mobilizar os trabalhadores em torno do “seu” Estado capitalista. O falso anti-imperialismo, por outro lado, incita os trabalhadores a escolherem uma grande potência em detrimento de outra, a considerarem certos Estados capitalistas como progressistas em si mesmos e a adiarem a luta contra a sua própria burguesia.
Essa linha é perigosa. Historicamente, levou o movimento operário ao chauvinismo social, em que os trabalhadores são mobilizados sob bandeiras vermelhas em prol dos interesses do capital nacional. Também abriu as portas para a cooperação com forças reacionárias e nacionalistas, desde que estas estejam em conflito com os EUA ou a UE. Mas uma classe trabalhadora que se deixa conduzir por tais forças perde a sua independência.
É claro que os comunistas não podem ser neutros diante dos crimes, guerras e dominação dos EUA e da NATO. Mas a resposta jamais poderá ser o apoio político a outros blocos de poder capitalistas. A nossa resposta deve ser a linha independente da classe trabalhadora: contra a NATO, contra a militarização da UE, contra o imperialismo estadunidense, mas também contra qualquer Estado burguês que procura os seus próprios mercados, recursos e esferas de influência.
A Sovintern e a PAIM demonstram a necessidade da luta ideológica. Não basta usar as palavras socialismo, anti-imperialismo e antifascismo. A questão é qual a linha de classe que está por trás dessas palavras. Se a classe trabalhadora não está no centro, se o capitalismo não é atacado como sistema, se a própria burguesia é absolvida e se os comunistas são incitados a marchar ao lado dos Estados capitalistas, então não se trata de marxismo-leninismo. Trata-se de oportunismo num embrulho vermelho.
Isto não se aplica apenas à Rússia. A linha PAIM também envolve um embelezamento sistemático do Estado chinês e do capital chinês. A China é apresentada como um contrapeso socialista ao imperialismo ocidental, apesar de o desenvolvimento do país hoje ser caracterizado por condições de mercado, acumulação de capital, formação de monopólios, exportação de capital e uma participação crescente na luta por matérias-primas, mercados e esferas de influência. Chamar a isso socialismo é esvaziar o conceito do seu conteúdo de classe.
Aqui, a expressão de Konstantin Syomin, “comunistas de mercado”, encaixa-se perfeitamente. Ela descreve precisamente essa tendência política: forças que conservam símbolos e frases comunistas, mas, na prática, defendem a lógica do mercado, o desenvolvimento do capital e os interesses de um Estado burguês. Falam de socialismo, mas a sua análise leva a classe trabalhadora a apoiar uma superpotência capitalista. Falam de anti-imperialismo, mas o seu “anti-imperialismo” limita-se a defender um polo imperialista contra o outro.
O chamado mundo multipolar é frequentemente apresentado como uma alternativa progressista. Mas a multipolaridade sob o capitalismo não significa a libertação da classe trabalhadora. Significa múltiplos centros de poder capitalista, múltiplas burguesias concorrentes e múltiplas grandes potências lutando por mercados, rotas comerciais, tecnologia, energia e influência política. Para a classe trabalhadora, não significa socialismo, mas o risco de ser mobilizada mais uma vez em prol da “sua” burguesia ou da burguesia de outrem na competição imperialista.
É por isso que a linha da PAIM é perigosa. Ela transforma o anti-imperialismo de uma luta contra todo o sistema imperialista, numa defesa de certos Estados capitalistas. Em vez de desenvolver uma estratégia independente da classe trabalhadora contra cada classe burguesa, ela vincula comunistas e trabalhadores ao capital chinês e russo sob bandeiras vermelhas. Não se trata de internacionalismo proletário. Trata-se de geopolítica burguesa com frases socialistas.
O internacionalismo da classe trabalhadora não se constrói com projetos de lealdade ao Estado, patriotismo parlamentar ou geopolítica de cor vermelha. Constrói-se através da luta contra o capital em todos os países, da solidariedade entre trabalhadores além-fronteiras e de uma estratégia independente para o poder operário e o socialismo. Portanto, qualquer tentativa de substituir o internacionalismo proletário pela política burguesa de campos políticos deve ser denunciada e combatida.
(NE) 1 «“Uma Rússia Justa” tem a sua própria internacional: «Em 27 de abril, [realizou-se] o fórum fundador da Rede Socialista Internacional “Sovintern – Pelo Socialismo no Século XXI”, criada pela Rússia Justa (SR). A Nova Internacional é chamada a substituir a Internacional Socialista, que caiu sob o impacto da política ocidental de dois pesos e duas medidas, explicaram os SR. Foca-se na agenda tradicional anticolonial e anticapitalista».[trad. autom.] Справедливая Россия создала международную социалистическую сеть Совинтерн, 28.04.2026
Fonte: https://riktpunkt.nu/2026/06/sovintern-och-wap-falsk-antiimperialism-i-rod-forkladnad/, publicado em 06.06.2026 e acedido em 15.06.2026



