A posição de Fidel Castro sobre a Perestroika e a Contrarrevolução na URSS

Intervenção de Eliseos Vagenas, membro do CC do Partido Comunista da Grécia (KKE) e chefe da Secção de Relações Internacionais do Partido,no I Colóquio Internacional “Fidel: Legado e Futuro”, que ocorreu em Havana de 10 a 13 de agosto.

“Agradecemos aos organizadores o convite para participar do 1º Colóquio Internacional “Fidel: Legado e Futuro.” A partir desta tribuna também queremos expressar a profunda solidariedade do Partido Comunista da Grécia (KKE) e de todos os comunistas na Grécia, com o povo heroico de Cuba, que está há décadas na mira do imperialismo dos EUA.

O grande revolucionário cubano Fidel Castro dedicou a sua vida à luta pela justiça social e pelo bem-estar do povo do seu país, assim como de todos os povos que se levantavam contra o imperialismo. Entregou todas as suas energias à vitória e consolidação da Revolução Socialista Cubana e à defesa das suas conquistas.

Nesta breve intervenção, gostaríamos, portanto, de destacar um aspeto importante da sua personalidade e da sua contribuição pessoal particular para o Movimento Comunista Internacional num momento crítico para toda a humanidade, e especialmente para o movimento comunista e operário mundial. Esse momento foi a perestroika, que acabou por se mostrar um veículo da contrarrevolução na URSS.

Fidel Castro foi um dos poucos líderes dos países socialistas daquele período que, embora reconhecesse as grandes conquistas da União Soviética, a assistência decisiva que ela tinha prestado a Cuba e a outros países que procuravam construir o socialismo, assim como a necessidade de medidas corretivas dentro do próprio socialismo, expressaram sérias reservas quanto ao caminho seguido pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Gradualmente, a sua posição evoluiu de um profundo ceticismo para uma postura abertamente crítica em relação aos acontecimentos que ocorriam na URSS. Essa atitude, sem dúvida, ajudou muitos revolucionários e comunistas em todo o mundo a orientarem-se corretamente em relação aos acontecimentos daquele período.

Mas o que havia exatamente na perestroika de Gorbachev que perturbava Fidel?

Claramente, uma de suas principais preocupações era a ofensiva difamatória lançada durante os anos da perestroika, “de dentro e de cima”, contra as ideias comunistas, contra o próprio Partido Comunista e contra a história revolucionária do país.

Como afirmou no seu relatório ao IV Congresso do Partido Comunista de Cuba: “Eu vi o prestígio do Partido desmoronar-se, vi o prestígio do Estado desmoronar-se, vi a história da URSS a ser difamada, e isso não tinha absolutamente nada a ver com crítica histórica.” ¹

Nesse Congresso, realizado dois meses depois de Yeltsin ter proibido o PCUS e dois meses antes da dissolução formal da União Soviética, Fidel defendeu o caminho socialista de Cuba e a própria Revolução contra a contrarrevolução e contra a correlação de forças internacional, esmagadoramente negativa, que então se formava.

Aí também referiu a sua participação, em 1987, numa reunião de dirigentes do Conselho de Assistência Económica Mútua (CMEA), onde, como recordou, os problemas causados por distorções na economia eram comuns a vários países socialistas.

Ao estudar as causas do derrubamento do socialismo na URSS, o KKE concentrou-se, entre outras coisas, nas chamadas reformas económicas de Kosygin e nas decisões erradas dos XX e XXII Congressos do PCUS, políticas que também foram promovidas noutros países socialistas.

Fidel também se referiu a estes problemas no seu discurso de abertura no IV Congresso do Partido Comunista de Cuba. Lembrou o que tinha dito aos outros líderes socialistas durante uma mesa redonda:

“Tentem, no futuro, evitar esse caminho, evitar o afastamento das pessoas e as consequências negativas que isso traz. Eles ouviram-me com grande interesse e, para ser sincero, muitos deles disseram-me depois: ‘Sabe, aconteceu exatamente a mesma coisa connosco.’ Quando lhes disse que muitos projetos de construção ficavam inacabados, quando lhes manifestei que estavam a procurar cumprir o plano com base em indicadores de valor de produção e não com base na linha de produtos necessários, quando afirmei que as empresas que deveriam produzir peças sobresselentes fabricavam apenas as cinquenta peças mais lucrativas e não produziam o restante, e assim por diante, alguns deles disseram-me muito francamente: ‘Sabe, exatamente a mesma coisa se passou connosco.'” ²

Castro entendia que a introdução de uma série de mecanismos de mercado e o enfraquecimento do planeamento central, iniciado  na URSS durante a década de 1960, poderiam gerar distorções, mesmo desigualdades sociais, e, em última análise, minar o próprio curso revolucionário.

Portanto, não foi por acaso que, exatamente ao mesmo tempo em que a perestroika se desenrolava na União Soviética, Cuba, a partir de 1986, adotou a política conhecida como “Retificação de Erros e Tendências Negativas”. Certas medidas adotadas em Cuba seguiram numa direção totalmente diferente da perestroika, revertendo várias medidas orientadas para o mercado que tinham sido introduzidas em anos anteriores.

Em conclusão, a perspicácia política de Fidel assentava numa profunda convicção que ele já tinha naquela época. Foi essa convicção que lhe permitiu, dois anos e meio antes da dissolução da URSS, no seu histórico discurso de 26 de julho de 1989 em Camagüey, criticar a perestroika e prever a possibilidade da dissolução da União Soviética e até mesmo de um conflito civil.

Essas palavras adquirem hoje um significado particular, quando vemos dois povos fraternos que viveram e alcançaram  juntos grandes conquistas durante os anos do socialismo, a massacrarem-se agora nos campos de batalha da guerra imperialista na Ucrânia pelos interesses dos capitalistas.

Muitos anos depois, em 2005, num discurso para estudantes da Universidade de Havana, Fidel focou-se em problemas como a fraca consciência e responsabilidade social, a má gestão económica, as decisões governamentais erradas, a apropriação individual e abusiva de riqueza social, a corrupção e outros fenómenos.

Falando com jovens e estudantes, ele partiu da necessidade de garantir que Cuba não repetisse o caminho seguido pela União Soviética. Criticou “aqueles que acreditavam que o socialismo poderia ser construído usando métodos capitalistas”, considerando isso como “um dos grandes erros históricos.” ³

Em resumo, a posição de Fidel Castro em relação à perestroika e ao triunfo da contrarrevolução na URSS destaca a importância, para os comunistas, da consistência ideológica e de fazer uma avaliação política oportuna do desenrolar dos acontecimentos.

Essa experiência histórica continua a ser objeto de estudo e reflexão e a servir para tirar conclusões úteis para o Movimento Comunista Internacional.”


Notas:

1. Fidel Castro Ruz, discurso na abertura do 4º Congresso do Partido Comunista de Cuba, 10 de outubro de 1991.
2. Ibid.3
3. Fidel Castro Ruz, discurso na Universidade de Havana, 17 de novembro de 2005.

https://www.idcommunism.com/2026/08/fidel-castros-position-on-perestroika-and-the-counterrevolution-in-ussr.html#more Traduzido de Rizospastis (aqui em grego)

Foto: https://humanidades.com/br/fidel-castro/

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