Passagem de Rafah Reabre Sob Interrogatórios, Abusos e o Envolvimento de Abu Shabab
A reabertura de Rafah expôs o rigoroso controlo israelita, recusas de passagem em massa, interrogatórios e um sistema de evacuação médica que mal funciona.

Principais Desenvolvimentos
- Israel permitiu apenas uma fração das passagens prometidas no primeiro dia, bloqueando a maioria dos repatriados e doentes.
- Palestinianos relataram interrogatórios de várias horas, uso de vendas nos olhos, ameaças e o confisco de bens pessoais nos postos de controlo israelitas.
- As forças israelitas mantiveram o controlo efetivo sobre Rafah através de corredores de segurança internos e listas de aprovação prévia.
- A crise médica em Gaza agravou-se, com apenas um pequeno grupo de doentes autorizado a sair, apesar de dezenas de milhares necessitarem de ajuda.
- Grupos de direitos humanos alertam que a operação em Rafah corre o risco de se tornar uma ferramenta de controlo populacional em vez de alívio humanitário.
A reabertura da fronteira de Rafah, entre Gaza e o Egito, foi apresentada como um avanço humanitário após quase dois anos de encerramento. Na prática, os primeiros dias de operação revelaram um sistema rigidamente controlado pela supervisão israelita, marcado por restrições severas, interrogatórios prolongados e violações generalizadas da dignidade básica. Os palestinianos questionam agora se Rafah reabriu realmente — ou se foi apenas reconfigurada como mais um instrumento de controlo.
Passagens muito abaixo do prometido
De acordo com os acordos oficiais anunciados antes da reabertura, esperava-se que 50 palestinianos regressassem a Gaza vindos do Egito no primeiro dia, enquanto 50 doentes e feridos deveriam sair para tratamento no estrangeiro. O que aconteceu ficou muito aquém desses números.
Apenas 12 palestinianos — nove mulheres e três crianças — foram autorizados a entrar em Gaza na noite de segunda-feira. Do lado da saída, apenas oito pacientes e respetivos acompanhantes tiveram permissão para partir, apesar das garantias anteriores de que até 150 pacientes cruzariam a fronteira diariamente. Dezenas de repatriados autorizados foram obrigados a regressar ao Egito sem explicação.
O Ministério do Interior de Gaza confirmou mais tarde estes números limitados, reconhecendo que o processo falhou e não foi cumprido, até os compromissos mínimos assumidos no acordo de reabertura.
Interrogatórios, Restrições e Coação
Testemunhos de quem regressou descrevem interrogatórios de horas nos postos de controlo controlados por Israel dentro e ao redor da passagem. Várias mulheres relataram ter sido vendadas, algemadas e interrogadas sobre afiliações políticas, familiares e eventos relacionados com o 7 de outubro.
Outros afirmaram que os interrogadores levantaram a questão da “migração”, pressionando-os sobre se pretendiam deixar Gaza permanentemente. Alguns foram ameaçados com a proibição de futuras passagens ou com a separação dos filhos caso recusassem cooperar. Uma mulher descreveu a experiência como “tortura psicológica”, afirmando que a mensagem era clara: o regresso a Gaza teria um preço.
Grupos de Abu Shabab na Passagem
Crucialmente, múltiplas testemunhas relataram o envolvimento direto de grupos armados ligados a Yasser Abu Shabab durante o processo de passagem.
Segundo estes testemunhos, indivíduos associados a Abu Shabab operavam perto dos postos de controlo israelitas, escoltando autocarros, gerindo transferências entre locais e participando na entrega de palestinianos às forças israelitas para interrogatório. Vários repatriados afirmaram ter sido retirados dos autocarros por estes grupos e entregues a soldados israelitas.
Os palestinianos descreveram a presença destes elementos como coerciva e intimidatória, alertando que o seu envolvimento reflete um sistema crescente de controlo por procuração (proxy control) em Rafah — onde a autoridade israelita é imposta através de intermediários locais, obscurecendo a responsabilidade enquanto aprofunda a vigilância e a dominação.
Confisco e Humilhação
Os repatriados relataram consistentemente que as forças israelitas confiscaram pertences pessoais, incluindo comida, artigos de higiene, perfumes, medicamentos e brinquedos. Cada pessoa só podia levar um pequeno saco de roupa.
Uma mãe contou como os soldados retiraram à força um brinquedo ao seu filho, dizendo à criança que era “proibido”. Descreveu o momento como um dos mais dolorosos que já viveu, afirmando que partiu o coração da criança após meses de deslocação e doença. Estas medidas foram vistas como uma tentativa deliberada de humilhar e dissuadir os palestinianos de tentarem cruzar a fronteira novamente.
Um Corredor Médico apenas no Nome
Autoridades de saúde em Gaza alertaram que o ritmo atual de partidas torna irrelevante a justificação humanitária para a reabertura de Rafah. O Dr. Bassam Zaqout, diretor dos serviços de ajuda médica em Gaza, afirmou que permitir a saída de 50 doentes por dia já seria insuficiente — no entanto, Israel não cumpriu sequer esse número, permitindo que apenas cinco casos críticos saíssem no primeiro dia.
Mais de 20.000 doentes aguardam atualmente tratamento no estrangeiro. Ao ritmo atual, estima-se que seriam necessários anos para evacuar todos os necessitados, tempo que muitos não têm.
Aberturas Parciais, Controlo Total
Embora a passagem esteja tecnicamente aberta em ambas as direções, os jornalistas continuam impedidos de entrar em Gaza e o movimento é estritamente limitado a listas pré-aprovadas e verificadas pelas autoridades israelitas. Israel retém o controlo sobre quem pode passar, quando e em que condições.
Para muitos palestinianos, a reabertura de Rafah confirmou o receio de que a passagem funcione agora menos como uma tábua de salvação humanitária e mais como uma extensão da arquitetura de cerco de Israel. Como disse um dos repatriados: “Eles não querem que voltemos. Querem Gaza vazia do seu povo.”




