A Catástrofe da Esquerda Portuguesa, análises erróneas  e a Ilusão do Anti-imperialismo BRICS

Em Maio de 2025, Portugal assistiu a uma viragem histórica à direita. O partido neofascista Chega obteve uma vitória eleitoral contundente. A coligação de direita Aliança Democrática (PSD e CDS) e a Iniciativa Liberal também alcançaram resultados surpreendentes. Em contraste, os partidos tradicionalmente associados à “esquerda” — o PS (socialista apenas no nome), o Bloco de Esquerda (BE) e o PCP (Partido Comunista Português) — sofreram derrotas dramáticas.

O fracasso da “esquerda institucional” portuguesa está profundamente enraizado na sua abdicação ideológica e na sua submissão tática ao PS durante o período da “Geringonça” — nome já de si revelador pela sua conotação pejorativa e instável mas alegremente utilizado pelos envolvidos. Tanto o BE como o PCP optaram por apoiar um governo neoliberal, renunciando à mobilização popular e aceitando o jogo eleitoral burguês como única forma de ação política.

No caso do PCP, essa abdicação foi ainda mais grave e já vinha de longe: abandonou-se uma linha marxista-leninista coerente, substituída por um eleitoralismo apagado e por um discurso cada vez mais burocrático e vazio. Esta mutação foi acompanhada de uma leitura profundamente errónea da dinâmica internacional, com louvores a regimes que, embora se apresentem como socialistas, são apenas expressões nacionais de um capitalismo selvagem e autoritário.

O mito BRICS e a cegueira anti-imperialista

Um exemplo gritante dessa confusão ideológica foi a reação entusiasta do PCP ao alargamento dos BRICS em 2023. Numa crónica publicada no Expresso, António Filipe exaltava a multipolaridade como uma oportunidade de desenvolvimento livre de “tutela imperialista”. No Avante!, Luís Carapinha tecia loas ao Partido Comunista Chinês como promotor de um mundo mais justo.
Mas que mundo é esse? Podemos realmente considerar como alternativa um bloco composto por oligarcas russos, capitalistas brasileiros, imãs iranianos e príncipes sauditas? O BRICS não é um movimento emancipador; é uma aliança entre potências capitalistas que procuram disputar a hegemonia mundial com os EUA e a União Europeia. A sua ação não visa a superação do capitalismo, mas sim a redistribuição das esferas de influência dentro da ordem mundial existente.

A tensão recente entre a Índia e o Paquistão é apenas mais um lembrete de que os membros dos BRICS não são um bloco homogéneo. As contradições internas entre os seus membros, com interesses políticos e estratégicos muitas vezes opostos, são profundas. E ainda que não sejamos cegos em relação à verdadeira natureza dos Estados que integram o BRICS — com as suas diferenças internas e interesses geopolíticos divergentes — é inegável que o aparecimento de uma força de oposição à hegemonia do chamado Ocidente representa uma pedra no sapato do poder dito ocidental.

Mas que futuro tem essa força? Como conciliar, por exemplo, as posições profundamente diferentes dos membros do BRICS em relação a Gaza? Ou à Síria? Qual é, afinal, o seu papel real no continente africano? São os objetivos africanos de autodeterminação e desenvolvimento verdadeiramente alinhados com os de China e Rússia? Seguramente não.

Imperialismo não é monopólio do Ocidente.