Linguagem e domínio ideológico da burguesia

Sob este título genérico, publicamos quinzenalmente um artigo – de uma série de seis  sobre os abusos e vulgarizações da linguagem que, na prática quotidiana, desvirtuam categorias marxistas e leninistas. Hoje, publica-se o primeiro – Introdução

I

 Introdução

Consideramos que a classe dominante exerce um domínio que é, também, de ordem linguístico, com o objetivo de vulgarizar determinados termos e de, assim, criar a sensação de que estamos todos a falar da mesma coisa... quando não estamos.   

Consideramos a obra teórica de Karl Marx e de Friedrich Engels e o legado teórico-prático de Vladimir Ilitch Lénine como uma arma teórica que nos possibilita a transformação do mundo. Neste sentido, as categorias filosóficas e da economia política de que aqueles nos muniram constituem a nossa base para uma análise científica da realidade concreta, através do estudo do desenvolvimento das relações de produção. O materialismo histórico e dialéctico constitui, desta forma, um sistema de pontos de vista científicos sobre as leis gerais que regem o desenvolvimento da natureza e da sociedade, permitindo-nos reflectir sobre as possibilidades históricas e concretas da revolução socialista e, consequentemente, das vias a seguir para a edificação do socialismo, rumo ao comunismo.

Esta edificação, que passa pela necessária superação do modo de organização actualmente dominante, sempre colocou o movimento comunista internacional perante a problemática seguinte: como efectuar essa transição?

Na discussão e problematização desta questão, duas leituras antagónicas desde sempre se fizeram: uma, reformista, que defende a possibilidade de existência de etapas intermédias entre o capitalismo e o socialismo; outra, revolucionária, herdeira dos ensinamentos das revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX e da Revolução Socialista de Outubro de 1917, que defende a necessária ruptura revolucionária como processo de transição do capitalismo para o socialismo.

A assunção da perspectiva reformista impõe-se, na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, de forma a justificar a participação institucional de Partidos Comunistas em governos dominados pela classe dominante (que aqueles, aliás, teoricamente, pretendiam substituir no poder).

Paulatinamente, Partidos Comunistas com uma histórica e heróica trajetória de luta e de resistência, vão defendendo a possibilidade de uma via pacífica e institucional como possibilidade de construção do socialismo. Esta visão predominará no seio do PCF e do PCI pós-guerra, ajudando-nos a compreender quer o fim destes partidos como vanguarda da classe operária, quer a sua completa submissão à classe dominante, antagónica daquela, numa tentativa de conciliar interesses de classe que permitissem gerir o capitalismo, e não superá-lo.

É assim que, na Itália, Togliatti defende a democracia progressiva, enquanto o PCF aprova, em 1968, o Manifesto de Champigny – Por uma Democracia Avançada, por uma França Socialista. Nele, a democracia avançada surge como uma etapa intermédia necessária para a construção do socialismo, não se caracterizando a natureza de classe do Estado dessa democracia avançada, e, portanto, omitindo de que forma a luta entre as classes antagónicas permitiria a superação das relações de produção capitalistas.

democracia avançada assentará, definitivamente, as bases do eurocomunismo que juntará numa mesma posição comum Georges Marchais (PCF), Enrico Berlinguer (PCI) e Santiago Carrilho (PCE), responsáveis pela destruição da matriz teórica dos partidos comunistas de que eram secretários-gerais.

Os ensinamentos de Marx e de Lénine são, neste ponto, fundamentais. O estudo que agora apresentamos pretende reflectir sobre a problemática dos graus transitórios, recorrendo, para tal, às categorias marxistas-leininistas que nos permitem ler e compreender as relações de produção impostas pelo capital.

junho2020