Com este texto pretendemos abordar brevemente os principais fundamentos filosóficos e económicos que estiveram na origem da obra marxiana e engeliana.

As duas principais inspirações de Marx e de Engels encontram-se, quer na filosofia alemã, quer na economia clássica (nomeadamente inglesa), quer, ainda, nos socialistas utópicos.

De Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), Marx incorpora, no seu trabalho, a dialética (Hegel elaborou as principais leis da dialética), enquanto de Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), Marx incorpora, sobretudo, o materialismo naturalista (aplicando, contudo, o materialismo à sociedade).

Da economia clássica, nomeadamente inglesa, Marx fundamenta os seus trabalhos a partir das obras dos fisiocratas (François de Quesnay (França), Adam Smith (Inglaterra), David Ricardo (Inglaterra)). Assim, por exemplo, é David Ricardo quem afirma que o valor representa o tempo de trabalho incorporado na produção de uma mercadoria e que a divisão da riqueza criada é distribuída diferentemente entre o trabalhador e o patrão. Contudo, para Ricardo, os conflitos sociais apenas tinham a ver com a distribuição daquela riqueza, uma vez que, ao invés do que faria Marx, Ricardo não pretendia nem explicar a realidade, nem colocar uma teoria ao serviço dos trabalhadores.

Relativamente ao socialismo utópico, Marx vai buscar as suas fontes, sobretudo, aos socialistas utópicos franceses (Claude-Henri de Rouvroy – conde de Saint-Simon – e François Marie Charles Fourier) e ao inglês Robert Owen.

O socialismo utópico foi o resultado de um conjunto de obras e de reflexões que surgiram, sobretudo, a partir da Revolução francesa de 1789. Marx e Engels consideram-no utópico, uma vez que aquele ideário não tinha em consideração a situação real das sociedades, defendendo que a transformação destas dependia da dedicação subjetiva, moral e/ou ética dos indivíduos.

Marx e Engels, ao contrário, afirmavam que uma sociedade que não fosse baseada na exploração teria de surgir a partir da sociedade em que vivemos. Para tal, seria fundamental o conhecimento das leis e da dinâmica do modo de produção em que o homem vive, pois apenas assim poderíamos saber em que sentido aquele evolui e de que forma poderá ser superado.

O estudo isolado do indivíduo na sociedade, com Marx e Engels, dá, assim, lugar ao estudo das atuações de grupos de indivíduos que se diferenciam entre si pelo papel desempenhado no sistema de relações de produção e pelas condições de produção. Os interesses que, dessa forma, caracterizam a atuação do indivíduo são determinados pela sua pertença a uma determinada classe.

O filósofo alemão Karl Eugen Dühring (1833-1921), a partir da oba de Daniel Defoe, Robison Crusoe (1719) – na qual se estabelece uma relação entre dois habitantes (Robinson e Sexta-feira) numa ilha perdida –, estende a relação de domínio entre Robison e o escravo Sexta-feira ao conjunto da sociedade sua contemporânea. Dühring defende que as circunstâncias políticas são a causa da situação económica, defendendo que Sexta-feira se torna escravo de Robinson por este possuir uma espada, e, por isso, poder dominar pela força o outro. Em Revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring (1877), obra mais conhecida como Anti-Dühring, Engels mostra a inverosimilhança desta interpretação do romance defoeano, revelando que a violência é apenas um meio para atingir uma vantagem económica: «Vemos, pois, que o exemplo pueril, expressamente inventado pelo Sr. Dühring para nos provar que a violência é um fator "historicamente fundamental", na realidade nos demonstra que este fator apenas é um meio, enquanto o fim está precisamente no proveito económico» (Engels [1877-1878]).

Engels demonstra que para se possuir um instrumento de violência é preciso fabricá-lo, sendo a sua fabricação (fator económico) a condição prévia de violência. Assim sendo, a escravatura exclui-se perante uma baixa produtividade do trabalho, pois, neste caso, não existe produção de mais-valia. Demonstra, desta forma, a importância das causas económicas na diferenciação da sociedade em classes, a qual supõe um determinado desenvolvimento da produção social [1].

O materialismo histórico demonstra, deste modo, que a existência das classes se encontra ligada a determinadas fases de um determinado desenvolvimento histórico da produção.

Através da aplicação do materialismo histórico e dialético à realidade material dos homens, o socialismo científico consegue objetivar a sociedade que virá depois do capitalismo, pondo em questão a inevitabilidade da exploração. Afirmando que a sociedade é movida por leis que os sujeitos desconhecem, Marx aplica o materialismo da Natureza ao funcionamento da sociedade, ou seja, utiliza, tal como as ciências naturais, critérios científicos na leitura da realidade social.

Ao propor uma lógica societal dialética, o materialismo dialético contrapõe-se ao idealismo filosófico – segundo o qual nada se transforma –, uma vez que a dialética materialista afirma que a realidade não é estática, antes estando em contínuo movimento e transformação: o movimento constitui, deste modo, a forma de existência da própria matéria, uma vez que não existe matéria sem movimento. O socialismo científico vai, assim, aplicar o materialismo dialético à sociedade (materialismo histórico): se tudo se transforma, também a sociedade, estando sujeita a determinadas leis, se modifica.

O materialismo histórico consiste, por conseguinte, na aplicação da visão materialista dialética à sociedade, buscando compreender os princípios segundo os quais esta se move. Sendo que a luta de classes é uma expressão deste movimento, é o próprio movimento da sociedade humana que conduzirá, numa sociedade de classes, o modo de organização socioeconómico que materializa essa estratificação classista à sua própria destruição.

Foi, em suma, a partir da crítica da economia política que Marx deslocou a sua reflexão para o estudo da crítica social. Os anos entre 1846 e 1852 são, desta forma, os anos de maturação do pensamento de Marx, sendo fundamentais quer para compreender o surgimento do pensamento materialista histórico e dialético, quer para compreender algumas das categorias que serão aprofundadas na obra O Capital.

Notas

[1] Uma vez que foi o aperfeiçoamento dos utensílios e o desenvolvimento da divisão social do trabalho com o aumento da sua produtividade que criaram as condições económicas que conduziram à desagregação da estrutura da comunidade primitiva, é na esfera da produção que teremos de compreender a divisão da sociedade em classes.